'O Paraná é seu': gravação feita por empresário leva a investigação de fraude em licitação milionária; secretários do governo do estado são citados na conversa

  • 17/04/2026
(Foto: Reprodução)
Justiça quebra sigilo bancário de empresário suspeito de fraude em licitação A Justiça do Paraná autorizou a quebra de sigilo bancário do empresário Adolfo Jachinski Neto, suspeito de participar de um esquema para fraudar uma licitação milionária da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Na decisão, o juiz Leandro Leite Carvalho Campos, da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, menciona áudios gravados por outro empresário, que indicam possível combinação de resultados e direcionamento da licitação, cujo valor total chega a quase R$ 4 milhões de reais. A informação foi publicada nesta quinta-feira (16) pela coluna do jornalista Lauro Jardim no jornal O Globo e confirmada pela RPC. Jachinski Neto é dono da empresa EBTS (Empresa Brasileira de Tecnologias e Sistemas), vencedora da licitação aberta em 2019 para compra de unidades fixas e móveis de treinamento de tiro para a Polícia Civil do Paraná. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Os áudios que deram origem à investigação foram gravados pelo empresário Jonny Rocha Braga. Segundo o juiz, Braga disse em depoimento que empresas estavam agindo em conjunto para simular uma disputa, enquanto os resultados já estavam combinados. "O depoente afirmou ter sido informado previamente acerca da futura licitação e da suposta certeza de vitória da empresa EBTS, assim como relatou a atuação coordenada de empresas concorrentes para simular disputa no certame", diz a decisão do juiz. Licitação alvo dos investigadores previa compra de unidades fixas e móveis de treinamento de tiro para a polícia. Reprodução/RPC Foram entregues à Polícia Civil cinco áudios, nos quais, de acordo com a decisão, "se identificam discussões sobre ajustes prévios do procedimento licitatório, estratégias para elevação do valor contratado, destinação de recursos financeiros a terceiros e referências à suposta influência de integrantes da Administração Pública e da comissão de licitação." O magistrado destaca um dos áudios, gravado na véspera da licitação, em que Adolfo Jachinski Neto descreve como a disputa seria encenada: “Vou fazer uns três, quatro lances. O Márcio vai dar uns três de quatro lances baratinho [...] para nós fazer uma disputa, para não ter problema para você." Na mesma gravação, Jachinski Neto afirma ter articulação com membros do Governo do Estado do Paraná. “Eu tô trabalhando com esses caras aqui, ó, do governo desde agosto do ano passado", diz Adolfo no áudio. "Os caras me chamaram, dizendo: 'Ó, nós precisamos da [inaudível], nós vamos fazer lá. Só que você tem que garantir que não vai ter problema'. Eu garanti que não tem problema. Daí nós estava tudo organizado." Áudios citam secretários do Governo do Estado Os ex-secretários estaduais Rômulo Marinho e Guto Silva são citados nos áudios da investigação. Reprodução/RPC Nos diálogos, há referências a pelo menos duas pessoas que, à época, eram secretários do governo. Adolfo menciona Guto Silva, então Secretário-Chefe da Casa Civil do Estado do Paraná, e Rômulo Marinho Soares, que foi Secretário de Estado da Segurança Pública entre 2019 e 2022. Também são feitas "menções genéricas a pagamentos destinados a terceiros, inclusive com suposta finalidade de financiamento de campanha política", segundo a decisão da Justiça. Em outras gravações reveladas pela coluna Lauro Jardim, às quais o g1 e a RPC também tiveram acesso, Adolfo se refere a Guto Silva como “a mão direita do cara”, em referência ao governador Ratinho Jr (PSD). O empresário afirma que Guto Silva controla a agenda do governador e três órgãos do estado: "Ele tem a Segurança debaixo dele, o Detran debaixo dele e a Celepar [Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná]. As três secretarias são do Guto", diz Jachinski Neto. O empresário investigado também menciona uma conversa com um assessor de Guto Silva. "Então, assim, o cara lá dele falou pra mim 'olha, o negócio é o seguinte: vamos fazer o acerto aí, tal e coisa, vamos fazer o projeto, tal e coisa, daí nós temos que puxar dinheiro pra campanha'. Falei: 'bom, não tem problema, não tem problema'. Não saindo do meu bolso, o que eu vou fazer? É assim ou nada né, cara?" O ex-secretário e atual deputado estadual Guto Silva e o ex-secretário Rômulo Marinho não são investigados no processo. Veja o posicionamento dos citados abaixo. "O Paraná é seu" Nas gravações, há ainda falas de Adolfo que sugerem favorecimento dentro da comissão de licitação, grupo de servidores públicos responsável por examinar e julgar os documentos e propostas do processo licitatório. “Todo mundo no esquema, principalmente a comissão", diz Adolfo. Diante das afirmações, Jonny Rocha Braga, que gravou a conversa, pergunta: "Então, se o Paraná é seu, vamos dizer assim, praticamente, pelo que você tá me falando, o cenário é esse: o Paraná é seu. Eles não me querem aqui nem pintado de ouro. Adolfo responde: "Não. Isso é verdade." Na decisão que autorizou a quebra do sigilo bancário, o juiz destaca que os áudios apontam para o direcionamento da licitação e indicam a simulação da competitividade. "Os elementos informativos coligidos até o momento — notadamente os diálogos gravados e suas respectivas transcrições, registro audiovisual, depoimento de testemunha, relatórios de investigação e demais documentos acostados aos autos — apontam, em tese, para a existência de tratativas prévias voltadas ao direcionamento do certame. Tais elementos indicam, ainda, a possível simulação de competitividade entre empresas, ajuste antecipado de lances, elevação artificial dos valores contratados e referências ao repasse de percentuais do contrato a terceiros, inclusive com menções à suposta influência de agentes públicos e de integrantes da comissão de licitação." O juiz ressalta que, apesar do indícios apontados na investigação, as autoridades policiais ainda não comprovaram que os pagamentos indevidos foram, de fato, realizados e quem foram os destinatários. Por isso, determinou a quebra do sigilo bancário do empresário investigado e da empresa dele, que venceu a licitação. Sede da Secretaria de Segurança Pública do Paraná Reprodução/RPC O que dizem os citados O Governo do Paraná disse, por meio de nota, que: "tem regras rígidas de controle, compliance e transparência e não responde por supostos áudios atribuídos a uma desavença societária de empresários sem vínculos com o Estado. A licitação, realizada há sete anos, foi feita por meio de pregão eletrônico, de forma transparente e os objetos propostos foram entregues. Eles estão em uso pela Polícia Civil desde então. O Tribunal de Contas do Estado inclusive atestou a regularidade da contratação em um acórdão publicado em julho de 2024. A investigação sobre a desavença societária é tocada pela Polícia Civil do Paraná e está direcionada para a desavença societária. O pedido de quebra de sigilo feito pela própria Policia Civil ajudará a esclarecer as versões apresentadas pelos empresários. Os ex-secretários não são investigados." O ex-secretário Guto Silva afirmou, também em nota, que "não conhece o empresário citado, jamais foi sócio ou manteve qualquer relação com ele ou com a empresa mencionada. O pregão 1133/2019 foi conduzido pela Secretaria de Segurança Pública, sem qualquer participação da Casa Civil ou do então secretário. Trata-se de acusação antiga, já esclarecida em 2022 e sem qualquer respaldo nos fatos ou nos órgãos de controle." O empresário Jonny Rocha Braga disse que apenas apresentou os áudios às autoridades: "Quero informar que as gravações foram feitas com intenção de comprovar uma dívida da EBTS para comigo. Desde 2014 o Adolfo vinha prometendo pagar a minha parte como fundador da empresa em 2008, com procedentes de licitações (tenho o acordo em mãos e o processo cível corre na Justiça). Promessa esta que passava de ano para ano sem ser cumprida. Reitero que eu nunca acusei nenhuma autoridade. Todas as tratativas, esquemas e nomes mencionados, foram feitas pelo próprio Adolfo, como mostram as gravações." O ex-secretário de Segurança Pública Rômulo Marinho e as defesas do empresário Adolfo Jachinski Neto e da empresa EBTS não responderam até a última atualização desta reportagem. LEIA TAMBÉM: Investigação: Homem suspeito de inventar órgão do governo federal para aplicar golpes é preso em São José dos Pinhais BR 277: Batida entre van e caminhão durante engavetamento mata adolescente e deixa diversos feridos 'Não era a minha hora': Paciente atingida na cabeça por tiro disparado por residente dentro de hospital no PR recebe alta VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2026/04/17/o-parana-e-seu-gravacao-feita-por-empresario-leva-a-investigacao-de-fraude-em-licitacao-milionaria-secretarios-do-governo-do-estado-sao-citados-na-conversa.ghtml


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